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Entre Nós

Achei que éramos dois ramos de uma mesma árvore, curvando-se juntos ao vento da vida, com folhas livres ao sol da confiança, e raízes firmes na calma da amizade. Fiz do meu peito abrigo e ponte, não muralha ou cárcere, jamais. Sonhei em ser farol, não corrente, mas vi que mentiras também têm cais. Eu te dei o céu sem fechar as janelas, acreditando que o ar da liberdade seria o que nos manteria próximos, mas o vento trouxe raiva e inverdade. O laço que eu achava bordado em afeto, se rompeu num gesto, numa escolha pequena. E foi como morder o próprio orgulho e sentir que tudo em mim se envenena. Fui pai e quis ser amigo — ainda que falho, sem apagar teu caminho. Mas agora, o som da tua omissão ressoa em mim como espinho. Não me magoa o erro que cometeu, mas a mentira com que o vestiu. Pois quem ama e confia de peito aberto espera ser abrigo, não um alvo sutil. E mesmo assim, filha, eu te amo. Não por fraqueza, mas por saber amar. O amor que dei não pede perfeição, só verdade, mesmo quando faz chorar. Também me arrependo, confesso sem escudo. A raiva me guiou antes que a razão chegasse. Fui trovão, quando devia ser brisa, e isso é um peso que me abraça. Perdão, se no meu modo de proteger fui pedra onde devia ser caminho. Se te fiz temer o que devia ser apoio, me culpo por perder esse carinho. Não sei se me perdoo tão cedo, essa falha me visita ao anoitecer. Ser pai é viver entre acertos e medos, entre o que se ensina e o que se quer entender. Mas filha, minha flor nascida entre minhas sombras, minha amiga antes de tudo, meu riso mais sincero: quero que saibas — ainda que não digas — que meu amor por ti é puro e inteiro. Se um dia voltares com o olhar de quem escuta, saberás que o amor nunca se desfez, nem se perdeu. Mas há feridas que, mesmo perdoadas, ensinam que a confiança é algo que se refaz... não nasceu.

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