Pular para o conteúdo principal

O Espelho do futuro


O calor sufocante que emanava de todo o equipamento de trabalho parecia ser um castigo imposto pelo destino, mesmo às quatro da manhã. O peso, ainda que incômodo, era leve em comparação às nuances efêmeras da odisseia adulta. As escolhas, imposições e, sem ser convidada, as frustações dançavam em harmonia com as luzes intermitentes azuis e vermelhas. Criava um ambiente hipnótico à beira da estação de trem no bairro do Cacique, não passava uma viva alma há tempos. Estava na rua mitológica do Deus dos céus e as dores lombares gritavam silenciosamente, enquanto meu parceiro lutava, em corpo e alma, contra o pesado véu das pálpebras.
O tédio invasivo da cena era dissipado por uma sinfonia vacilante de um poste de luz à minha frente. Eu contava, pacientemente, a frequência do brilho, o código secreto tecia um bordado efêmero na noite. Com a mensagem indecifrada, uma figura solitária surgiu, desprendendo-se das sombras como um sonho esquecido. Não consigo dizer de onde veio; quando a percebi, já estava parada no pé da coluna de cimento. Uma vaga de assombro me seguiu, como um eco distante, levei a mão até a última palavra da conversa em aço. Contudo, não a saquei. Uma familiaridade ancestral em seu semblante, e seu sorriso, como um fio de luz rompendo a escuridão, convidou-me a desvendar o mistério, sem o peso do temor.
Conforme eu me aproximava, o fulgor do topo da lâmpada se esvaneceu. Antes que pudesse saudá-lo, ele falou, com uma voz que evocava a mesma familiaridade visual:
— As cicatrizes são a caligrafia do passado em teu corpo, cada traço indica a direção do teu amanhã.
Como um riso se transformando em choro, as palavras me surpreenderam, e a neblina da confusão cobriu o céu claro das minhas lembranças. A voz se desenha em tonalidades que só quem ouve de fora pode perceber, e tardei a compreender as notas que realmente vibravam em meu ser. Sem conseguir pensar, questionei com as únicas que consegui falar:
— Quem é você?
Com um sorriso que ecoava memórias que eu não sabia ter, o homem me respondeu:
— Sou aquele que eu tinha medo de ser. Sou aquele que, anos atrás, sofria por tentar mudar o mundo. Sou aquele que encarou a vergonha, o medo da falha, o julgamento e os risos. Eu sou o sonho. Não aquele que tenho quando durmo, mas sim o que acordo para realizar.
A confusão só aumentava, e no limite da minha fleuma, ele prosseguiu:
— Em meio às sombras da incerteza, estive aqui, há tantos anos. Demorei despertar da realidade, até me entregar ao meu sonho, ao meu labirinto de ilusões.
Nesse momento, a voz do meu parceiro ressoou de dentro da viatura sentindo minha ausência:
— Lopes, o que está fazendo aí?
Olhei para trás, para responder, justo quando a luz voltou a piscar. E percebi, com um leve arrepio, que estava sozinho ali. No poste, um pequeno espelho estava pendurado, aqueles das bordas laranjas, refletindo um velho eu, cabelos e bigode brancos, como uma esperança que guia nossos passos, e segurando um velho livro. Sorria com a mesma irreverência do trovador misterioso, e somente naquele momento percebi que ele havia se dissipado junto da escuridão, deixando apenas o eco de suas palavras e a imagem de uma coragem esperançosa florescia dentro de mim. A noite não era mais opressora; era um convite à liberdade da criação. Sentei na viatura, peguei um pequeno caderno em meu colete e escrevi, pronto para traduzir em palavras a melodia, antes silenciosa, que ecoava em minha alma.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Pão

Ele não tinha certeza se era um rato. Foi um risco rápido, rente ao chão, atravessando a cozinha e sumindo para trás do sofá. Não houve barulho, só aquele segundo em que o corpo reage antes do pensamento. O pé parou no ar. O coração também. Depois nada. Ficou ali, parado, esperando que alguma coisa confirmasse o que tinha visto. Não confirmou. A casa continuou sendo casa. Geladeira ligada. Relógio marcando horas inúteis. Não comentou com ninguém. A esposa dormia. A filha também. Cada uma no quarto, cada uma com a porta fechada como quem fecha o dia. Ele pensou em falar de manhã, mas desistiu. Parecia exagero. Parecia bobo. Parecia cansaço demais para virar assunto. Pegou um pedaço de pão. Não pensou muito. Só colocou no meio da cozinha, como quem deixa uma pergunta aberta no chão. Amanhã ele saberia. Amanhã sempre parece um bom lugar para resolver as coisas. Dormiu mal. Acordou tarde. A casa já estava vazia. O silêncio da manhã era diferente do da madrugada. T...

Entre Nós

Achei que éramos dois ramos de uma mesma árvore, curvando-se juntos ao vento da vida, com folhas livres ao sol da confiança, e raízes firmes na calma da amizade. Fiz do meu peito abrigo e ponte, não muralha ou cárcere, jamais. Sonhei em ser farol, não corrente, mas vi que mentiras também têm cais. Eu te dei o céu sem fechar as janelas, acreditando que o ar da liberdade seria o que nos manteria próximos, mas o vento trouxe raiva e inverdade. O laço que eu achava bordado em afeto, se rompeu num gesto, numa escolha pequena. E foi como morder o próprio orgulho e sentir que tudo em mim se envenena. Fui pai e quis ser amigo — ainda que falho, sem apagar teu caminho. Mas agora, o som da tua omissão ressoa em mim como espinho. Não me magoa o erro que cometeu, mas a mentira com que o vestiu. Pois quem ama e confia de peito aberto espera ser abrigo, não um alvo sutil. E mesmo assim, filha, eu te amo. Não por fraqueza, mas por saber amar. O amor que dei não pede perfeição, só verdade, mesmo...