Achei que éramos dois ramos de uma mesma árvore, curvando-se juntos ao vento da vida, com folhas livres ao sol da confiança, e raízes firmes na calma da amizade. Fiz do meu peito abrigo e ponte, não muralha ou cárcere, jamais. Sonhei em ser farol, não corrente, mas vi que mentiras também têm cais. Eu te dei o céu sem fechar as janelas, acreditando que o ar da liberdade seria o que nos manteria próximos, mas o vento trouxe raiva e inverdade. O laço que eu achava bordado em afeto, se rompeu num gesto, numa escolha pequena. E foi como morder o próprio orgulho e sentir que tudo em mim se envenena. Fui pai e quis ser amigo — ainda que falho, sem apagar teu caminho. Mas agora, o som da tua omissão ressoa em mim como espinho. Não me magoa o erro que cometeu, mas a mentira com que o vestiu. Pois quem ama e confia de peito aberto espera ser abrigo, não um alvo sutil. E mesmo assim, filha, eu te amo. Não por fraqueza, mas por saber amar. O amor que dei não pede perfeição, só verdade, mesmo...
contos, crônicas e poemas