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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Entre Nós

Achei que éramos dois ramos de uma mesma árvore, curvando-se juntos ao vento da vida, com folhas livres ao sol da confiança, e raízes firmes na calma da amizade. Fiz do meu peito abrigo e ponte, não muralha ou cárcere, jamais. Sonhei em ser farol, não corrente, mas vi que mentiras também têm cais. Eu te dei o céu sem fechar as janelas, acreditando que o ar da liberdade seria o que nos manteria próximos, mas o vento trouxe raiva e inverdade. O laço que eu achava bordado em afeto, se rompeu num gesto, numa escolha pequena. E foi como morder o próprio orgulho e sentir que tudo em mim se envenena. Fui pai e quis ser amigo — ainda que falho, sem apagar teu caminho. Mas agora, o som da tua omissão ressoa em mim como espinho. Não me magoa o erro que cometeu, mas a mentira com que o vestiu. Pois quem ama e confia de peito aberto espera ser abrigo, não um alvo sutil. E mesmo assim, filha, eu te amo. Não por fraqueza, mas por saber amar. O amor que dei não pede perfeição, só verdade, mesmo...

O Espelho do futuro

O calor sufocante que emanava de todo o equipamento de trabalho parecia ser um castigo imposto pelo destino, mesmo às quatro da manhã. O peso, ainda que incômodo, era leve em comparação às nuances efêmeras da odisseia adulta. As escolhas, imposições e, sem ser convidada, as frustações dançavam em harmonia com as luzes intermitentes azuis e vermelhas. Criava um ambiente hipnótico à beira da estação de trem no bairro do Cacique, não passava uma viva alma há tempos. Estava na rua mitológica do Deus dos céus e as dores lombares gritavam silenciosamente, enquanto meu parceiro lutava, em corpo e alma, contra o pesado véu das pálpebras. O tédio invasivo da cena era dissipado por uma sinfonia vacilante de um poste de luz à minha frente. Eu contava, pacientemente, a frequência do brilho, o código secreto tecia um bordado efêmero na noite. Com a mensagem indecifrada, uma figura solitária surgiu, desprendendo-se das sombras como um sonho esquecido. Não consigo dizer de onde veio; quando a ...

O Pão

Ele não tinha certeza se era um rato. Foi um risco rápido, rente ao chão, atravessando a cozinha e sumindo para trás do sofá. Não houve barulho, só aquele segundo em que o corpo reage antes do pensamento. O pé parou no ar. O coração também. Depois nada. Ficou ali, parado, esperando que alguma coisa confirmasse o que tinha visto. Não confirmou. A casa continuou sendo casa. Geladeira ligada. Relógio marcando horas inúteis. Não comentou com ninguém. A esposa dormia. A filha também. Cada uma no quarto, cada uma com a porta fechada como quem fecha o dia. Ele pensou em falar de manhã, mas desistiu. Parecia exagero. Parecia bobo. Parecia cansaço demais para virar assunto. Pegou um pedaço de pão. Não pensou muito. Só colocou no meio da cozinha, como quem deixa uma pergunta aberta no chão. Amanhã ele saberia. Amanhã sempre parece um bom lugar para resolver as coisas. Dormiu mal. Acordou tarde. A casa já estava vazia. O silêncio da manhã era diferente do da madrugada. T...