Achei que éramos dois ramos de uma mesma árvore, curvando-se juntos ao vento da vida, com folhas livres ao sol da confiança, e raízes firmes na calma da amizade. Fiz do meu peito abrigo e ponte, não muralha ou cárcere, jamais. Sonhei em ser farol, não corrente, mas vi que mentiras também têm cais. Eu te dei o céu sem fechar as janelas, acreditando que o ar da liberdade seria o que nos manteria próximos, mas o vento trouxe raiva e inverdade. O laço que eu achava bordado em afeto, se rompeu num gesto, numa escolha pequena. E foi como morder o próprio orgulho e sentir que tudo em mim se envenena. Fui pai e quis ser amigo — ainda que falho, sem apagar teu caminho. Mas agora, o som da tua omissão ressoa em mim como espinho. Não me magoa o erro que cometeu, mas a mentira com que o vestiu. Pois quem ama e confia de peito aberto espera ser abrigo, não um alvo sutil. E mesmo assim, filha, eu te amo. Não por fraqueza, mas por saber amar. O amor que dei não pede perfeição, só verdade, mesmo...
O calor sufocante que emanava de todo o equipamento de trabalho parecia ser um castigo imposto pelo destino, mesmo às quatro da manhã. O peso, ainda que incômodo, era leve em comparação às nuances efêmeras da odisseia adulta. As escolhas, imposições e, sem ser convidada, as frustações dançavam em harmonia com as luzes intermitentes azuis e vermelhas. Criava um ambiente hipnótico à beira da estação de trem no bairro do Cacique, não passava uma viva alma há tempos. Estava na rua mitológica do Deus dos céus e as dores lombares gritavam silenciosamente, enquanto meu parceiro lutava, em corpo e alma, contra o pesado véu das pálpebras. O tédio invasivo da cena era dissipado por uma sinfonia vacilante de um poste de luz à minha frente. Eu contava, pacientemente, a frequência do brilho, o código secreto tecia um bordado efêmero na noite. Com a mensagem indecifrada, uma figura solitária surgiu, desprendendo-se das sombras como um sonho esquecido. Não consigo dizer de onde veio; quando a ...